Prezado leitor, prepare-se para uma viagem cultural fascinante e um tanto quanto inusitada. Em meio às paisagens majestosas do Butão, um símbolo se destaca com uma proeminência surpreendente e um significado profundo: o falo.
Longe de ser um tabu, a fascinação butanesa por este símbolo possui raízes históricas e espirituais que remontam ao século XV, moldando a cultura e a fé de uma nação.
Drukpa Kunley: O Louco Divino e a Origem de uma Devoção
A história por trás dessa veneração remonta à chegada de um excêntrico e indomável santo tibetano, ou Lama, conhecido como Drukpa Kunley, no século XV.
Acredita-se que ele tenha disparado uma flecha do Tibete para marcar um novo local para disseminar seus ensinamentos. A flecha aterrissou próximo ao que hoje é o Chimi Lakhang, em Punakha (onde seu templo se encontra atualmente), guiando-o ao Butão.
Em sua busca pela flecha, Kunley encontrou uma jovem que acreditava em sua causa. Satisfeito com sua lealdade, ele passou a noite com ela e a “abençoou” com sua prole.
Hoje, o templo da fertilidade abriga um arco e flecha antigos, além de um totem fálico de 25 centímetros, feito de marfim e madeira.
Após sua introdução ao Butão, as viagens de Kunley pelo reino revelaram a ele os modos estritos do clero e sua adesão inabalável às normas sociais ortodoxas.
Com o compromisso de libertar o povo de suas convenções, ele se propôs a espalhar os verdadeiros ensinamentos de Buda.
Seus hábitos libertinos e as conotações sexuais em suas ações muitas vezes extravagantes lhe renderam o apelido de “O Louco Divino”.
Com sua poesia obscena, humor provocante e sermões induzidos pelo vinho, ele chocava deliberadamente as pessoas, levando-as a questionar o status quo e a derrubar tradições.
Um Símbolo de Fertilidade e Proteção Divina
Prezado leitor, talvez a menção explícita do falo cause estranhamento em algumas culturas, mas no Butão, ele é um símbolo onipresente e carregado de um profundo significado.
Não há desconforto ou constrangimento em falar sobre ele; na verdade, sua presença é vista como algo natural e vantajoso, com uma importância histórica e espiritual imensa para a nação butanesa.
Ele é considerado um deus da fertilidade, e seu nome é Drukpa Kunley.
Reconhecido como um altamente qualificado mestre budista (onde “Drukpa” é o nome de uma escola e “Kunley” seu nome comum), Drukpa Kunley é popularmente conhecido como o “Louco Divino Butanês”.
Ele chegou ao Butão no século XV vindo do Tibete para subjugar espíritos malignos e disseminar ensinamentos.
Para isso, ele usou seu próprio falo como uma arma divina e poderosa para subjugar as forças do mal. Ele foi um grande mestre tântrico do Tibete e o único santo que combinou a fé com a gratificação sexual.
Seus métodos de ensino eram radicalmente diferentes dos outros mestres, baseando-se principalmente em vinho e no que ele chamava de “mulheres loucas” — um jeito irreverente de expressar a fusão do prazer carnal com a espiritualidade.
Ele pregava de maneira intencionalmente “louca” e desinibida, para transmitir sua mensagem de forma impactante.
Talvez a lenda mais famosa que aponta diretamente para o simbolismo fálico seja a de Lama Kunley usando seu “raio flamejante de sabedoria” para subjugar uma demonesa chamada Loro Duem, que residia na atual passagem de Dochu La e aterrorizava todos que ousavam passar por lá.
Quando o Lama soube de suas façanhas, ele a caçou, expulsando-a de Dochu La até o local atual do templo Chimi Lakhang.
A demonesa em fuga transformou-se em um cão para evitar ser pega, mas Kunley a reconheceu, matou-a e a enterrou no morro, construindo então um santuário budista preto, ou chorten, sobre sua sepultura.
Seu primo, Lam Ngawang Choegyal, mais tarde construiu um Lhakhang em homenagem a seu ilustre parente, nomeando-o Chimi Lhakhang (nomeado assim após a subjugação; “Chimi” significa “sem cão” e “Lakhang” significa “templo”).
Existem inúmeras outras anedotas sobre as idiossincrasias desse santo “louco”.
Uma delas afirma que, ao receber um fio sagrado para amarrar no pescoço, ele decidiu usá-lo para adornar seu pênis, declarando, chocantemente, que esperava que isso lhe trouxesse sorte com as mulheres.
É por isso que muitas das pinturas atuais apresentam fitas ao redor do falo. Outra história fala sobre como ele supostamente urinou em um pergaminho sagrado.
Hoje, muitos casais recém-casados e sem filhos de todo o mundo fazem uma caminhada até o templo da fertilidade para buscar as bênçãos do “raio divino”, também conhecido como o antigo totem fálico de madeira.
Há até um livro de fotos dentro do templo com imagens de visitantes que enviaram fotos com seus bebês recém-nascidos, meses depois de visitarem o local.
Além da Compreensão Ocidental: Um Lembrete Profundo
Embora Drukpa Kunley não tenha sido amplamente aceito em sua época, hoje ele é reverenciado por seus modos audaciosos e pela essência de seus ensinamentos.
Os moradores locais continuam a pintar o falo nas paredes externas de suas casas para afastar espíritos malignos e invocar os deuses da fertilidade.
Ao contrário das sensibilidades ocidentais tradicionais, que frequentemente consideram o falo como um objeto a ser reprimido, a abordagem butanesa é prática e refrescantemente honesta.
E seu significado vai muito além do que qualquer não-butanês pode compreender.
Talvez a explicação mais simples para a proeminência do falo butanês possa ser encontrada nas palavras de um estudioso budista da capital Thimphu: “O falo é uma força que pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal.”
“Quando aproveitada sabiamente, torna-se uma energia criativa, uma força positiva”, ele explica. “Mas quando deixado sem controle, transforma os homens em criaturas selvagens e lascivas. A imagem do falo é um lembrete para os homens controlarem essa força e a usarem de forma positiva.”
Assim, o falo no Butão transcende o simples objeto anatômico para se tornar um símbolo complexo de fertilidade, proteção, e um poderoso lembrete da necessidade de sabedoria e controle sobre as energias mais primárias do homem.


